Elas: Marcela Ambrois

Conheça a artista uruguaia, baseada em Montevidéu, cuja trajetória foi moldada em um lar repleto de talento. Inspirada por sua mãe e avó, que lhe mostraram a criatividade como uma forma autêntica de expressão, ela desenvolveu um olhar único para a arte.

Suas obras traduzem paisagens e composições orgânicas, mesclando fluidez e precisão geométrica. Para Marcela, a arte reflete a harmonia entre estrutura e transformação.

Graças aos seus primeiros estudos de carvão e óleo na adolescência, Marcela começa a incorporar a expressão da paisagem, que mais tarde reaparecerá em suas buscas artísticas como principal linguagem e forma de expressão. Atualmente, dedica-se ao desenvolvimento de diversos projetos mediados pela pintura, incluindo experimentação com papéis, tecidos, madeiras e plantas.

Suas obras foram exibidas na Fundação Pablo Atchugarry (2019), na Galeria Misiones (2017-2018) e na Galeria Ciudadela (2016), no Uruguai.

Nos conta sobre sua trajetória?

Minha trajetória como artista começou desde muito cedo, profundamente influenciada pelo ambiente ao meu redor. Venho de uma família de artistas, e tanto minha mãe quanto minha avó foram grandes referências para mim. Minha mãe, uma artista visual, sempre foi uma fonte de inspiração e apoio. Através de seu trabalho e abordagem artística, aprendi a valorizar a criatividade como uma forma genuína e livre de expressão. Em minha casa, a arte estava sempre presente, e cresci vendo como minha mãe transformava o espaço, enchendo-o de cores, formas e emoções.

Além disso, minhas primeiras experiências com a arte foram influenciadas pela natureza e pelo campo, pois passei parte da minha infância no interior, em Mercedes, Soriano, onde a conexão com a natureza foi essencial. O ritmo mais lento do campo, a vastidão da paisagem e a proximidade com os animais moldaram minha maneira de perceber o mundo e a arte.

Minha formação como artista se aprofundou ao longo dos anos com mestres que foram fundamentais no meu desenvolvimento. As experiências da minha infância e os mestres que tive me acompanharam ao longo de toda a minha carreira, lembrando-me da importância de ser fiel a mim mesma como artista e da necessidade de me conectar com o mundo ao meu redor.

"Busco dar forma a paisagens e formas orgânicas, sempre conectando com a geometria sensível, um equilíbrio entre a fluidez natural e a precisão das formas. Essa relação entre o orgânico e o geométrico reflete a maneira como vejo o mundo: fluido e estruturado ao mesmo tempo, sempre em contínua transformação e transição.

Também considero fundamental dar espaço à experimentação e a tudo o que não é criado com a intenção de ser exibido, mas sim como uma experiência pura de criação. Quantas obras genuínas surgem realmente desse estado, senão toda?"

Nos conta Marcela.

Como você percebe a cena artística no Uruguai hoje?

A cena artística no Uruguai hoje está em um momento de efervescência, com uma crescente diversidade de propostas e linguagens. O país, tradicionalmente rico em sua herança cultural, vem passando por uma renovação na produção de arte contemporânea, com artistas locais buscando novos meios de expressão e se conectando tanto com questões universais quanto com elementos específicos da identidade uruguaia. Assim como em várias partes do mundo, a arte visual se distancia cada vez mais das formas tradicionais, abrindo espaço para a experimentação, a fusão de linguagens e a busca por novas maneiras de comunicar a complexidade do mundo em que vivemos.

No entanto, a cena artística uruguaia ainda é um tanto limitada em comparação com outros centros de arte, como Buenos Aires ou São Paulo. Muitas vezes, os artistas locais enfrentam dificuldades para obter maior visibilidade internacional. Ainda assim, acredito que essa cena está se expandindo pouco a pouco, especialmente com o aumento de iniciativas como o MACA e galerias de grande trajetória, como a Galeria Sur, que trazem artistas do mundo todo ao país e fomentam o intercâmbio cultural. Além disso, há uma presença crescente de colecionadores estrangeiros que demonstram cada vez mais interesse pela arte uruguaia, o que, sem dúvida, é um aspecto positivo para a cena local, pois oferece oportunidades de sustentação e visibilidade para os artistas.

Também percebo uma valorização crescente da arte que dialoga com questões sociais e ambientais, algo que tem sido um foco importante para muitos artistas contemporâneos. Há uma busca constante por uma reflexão crítica sobre o presente e o futuro, o que torna a produção artística extremamente rica.

Vejo a cena artística no Uruguai em constante evolução, com altos e baixos, mas com um grande potencial de crescimento.

Conta pra gente suas galerias favoritas no Uruguai?

A cena artística no Uruguai conta com diversos museus e galerias fundamentais que tiveram um papel essencial na minha experiência artística.

O Museu Torres García é um espaço imprescindível para compreender não apenas a história da arte construtiva, mas também a profunda conexão entre a arte moderna e as tradições ancestrais da América. Sempre recomendo esse museu por sua coleção inestimável e sua proposta educativa enriquecedora.

Outro museu que merece destaque é o Museu Nacional de Artes Visuais (MNAV), em Montevidéu. Ele abriga uma rica coleção de arte moderna e contemporânea uruguaia, com obras de grandes nomes como Torres García, Figari e Blanes. Além disso, sua arquitetura e seu espaço expositivo fazem dele uma referência tanto para o público local quanto para visitantes internacionais.

O Museu Blanes, também em Montevidéu, tem um enorme valor simbólico, não só por sua coleção, mas pelo seu entorno, que permite uma conexão única com a paisagem natural da cidade. Localizado na região do Prado, próximo ao Jardim Botânico de Montevidéu, o espaço onde realizamos a exposição possui árvores magníficas… são aqueles lugares que se tornam museus naturais, no meio da cidade. É um dos espaços onde a história da arte uruguaia e a natureza se encontram de forma harmônica.

O Museu Zorrilla também ocupa um lugar especial. Seu legado ressalta a importância de Juan Zorrilla de San Martín, uma das grandes referências da literatura e cultura uruguaia. Além disso, sua localização e atmosfera fazem dele um ponto de interesse tanto para artistas quanto para visitantes que desejam se aprofundar na identidade uruguaia.

Em Punta del Este, o Museu de Arte Contemporânea Atchugarry (MACA) é um espaço fundamental. A obra de Pablo Atchugarry e sua proposta de integração entre arte contemporânea e natureza o transformam em um dos principais polos artísticos da região. Esse museu cria uma ponte entre a arte contemporânea internacional e local, além de incentivar o colecionismo e o apoio à arte, fatores essenciais para o crescimento do ecossistema artístico uruguaio.

Entre as galerias, a Galería de las Misiones e a Black Gallery são dois espaços que conheço de perto.

Uma das minhas favoritas é, sem dúvida, a Galería de las Misiones, um espaço único que se destaca pela beleza arquitetônica e pelo ambiente sereno, ideal para a contemplação da arte. Além de ser um importante centro expositivo, sua localização em José Ignacio combina o encanto da cidade com um toque de calma e natureza. Sua arquitetura moderna cria um ambiente que convida à imersão artística, tornando a experiência de visitação ainda mais especial.

O que mais me atrai na Galería de las Misiones é seu enfoque diverso, abrangendo desde a arte construtiva moderna e contemporânea até a arte clássica. Essa abordagem ampla permite uma visão abrangente das tendências e movimentos que marcaram a arte uruguaia e internacional. A galeria mantém um constante diálogo com a cena artística global, promovendo um valioso intercâmbio cultural.

Outro aspecto que a diferencia são os murais que se integram ao espaço como uma extensão do próprio acervo. Essas obras dialogam com a arquitetura da galeria, criando uma atmosfera única e estabelecendo uma conexão direta entre arte e ambiente expositivo.

Tive o privilégio de expor nesse espaço em ocasiões pontuais e sempre senti que meu trabalho se encaixava perfeitamente, tanto pelo enfoque da galeria na arte contemporânea quanto pelo respeito à tradição do arte construtivo. A galeria tem uma maneira especial de apresentar as obras, proporcionando ao espectador uma experiência sensorial que vai além da simples contemplação.

Já a Black Gallery, em Pueblo Garzón, é um espaço no qual participo atualmente e onde exponho minhas obras, especialmente durante a temporada de dezembro e janeiro. Essa galeria tem sido essencial na promoção de artistas locais, criando um ambiente dinâmico e receptivo à arte contemporânea.

Também vale destacar a crescente relevância de Pueblo Garzón como polo artístico. Nos últimos anos, esse pequeno povoado se transformou em um verdadeiro centro cultural, atraindo colecionadores e turistas interessados em arte. Suas galerias e espaços culturais vêm desempenhando um papel fundamental no cenário artístico uruguaio.

Por fim, é essencial reconhecer o impacto do colecionismo no Uruguai. A presença de colecionadores estrangeiros, que vêm apoiar e promover a arte local, tem sido um fator determinante para o fortalecimento da cena artística. Muitos desses colecionadores, assim como fundações e museus, desempenham um papel crucial no sustento e desenvolvimento da arte contemporânea no país.

Lugares no Uruguai que nossas leitoras não poderiam deixar de visitar.

Uruguai possui diversos locais essenciais para quem deseja explorar sua riqueza cultural e paisagística.

Colonia del Sacramento é um destino imperdível, com suas ruas históricas e arquitetura colonial. A Plaza de Toros, onde expus no evento Arte e Arquitetura, é um exemplo de fusão entre arte e patrimônio.

Em Punta Ballena, Casa Pueblo, obra de Carlos Páez Vilaró, é uma verdadeira obra de arte integrada à natureza, oferecendo uma experiência única de arte e paisagem. Já o MACA (Museu de Arte Contemporâneo Atchugarry), na ruta 104, destaca-se pelo parque de esculturas e pelo ateliê aberto do artista Pablo Atchugarry, um espaço essencial para os amantes da escultura.

Em Montevideo, o Museo Zorrilla e o Museo Nacional de Artes Visuales (MNAV) são fundamentais para entender a arte e a cultura uruguaia. O Jardín Botánico é um refúgio verde dentro da cidade, enquanto a Ciudad Vieja abriga o Museo Torres García e diversos espaços culturais.

Para um café especial, recomendo Café La Farmacia, em Ciudad Vieja, e 6 Montes, no bairro Cordón, onde é possível vivenciar o processo de torrefação de café em um ambiente aconchegante.

Como seria um dia perfeito para você?

Um dia perfeito para mim seria aquele em que eu pudesse me conectar completamente com a natureza, sem pressa nem preocupações. Imagino-me indo para o campo com poucas coisas simples: um tecido, lápis, tintas, algumas folhas, tecidos e minha mente livre para criar.

Gosto de espalhar tudo na grama, sentar-me ali, cercada por uma paisagem inspiradora, e deixar a pintura fluir enquanto me fundo com o ambiente. É um momento muito simples, mas profundo, onde as horas desaparecem e tudo o que importa é o ato de criar. Talvez um pouco romântico demais, mas me traz uma alegria imensa. Também gosto da ideia de não precisar de nada...

É um sentimento parecido com o que imagino em Monet, essa conexão tão pura com a natureza. De certa forma, é como se eu esquecesse o mundo – existimos apenas eu, as tintas e a paisagem, em perfeita harmonia.

Há algo muito especial também às margens do Rio Negro, um lugar onde já pintei muitas vezes e que me inspira profundamente. Ali, cada pincelada parece estar diretamente conectada com a água, o horizonte, a luz, o vento... Tudo se mistura de uma maneira tão fluida que arte e natureza se tornam uma só coisa. É como uma dança sem tempo nem fronteiras; mais uma vez: apenas a paisagem, a pintura e eu.

Tem algum recado que você gostaria de deixar para nossas leitoras?


Acho que estou chegando a algo que também gostaria de sempre lembrar a mim mesma: buscar conectar-se com a nossa essência interior, esse lugar profundo e silencioso que todos carregamos dentro. É fácil nos perdermos nas expectativas do mundo, nos julgamentos e pressões externas, mas a verdadeira paz e liberdade estão em nos permitirmos ser como realmente somos – sem máscaras, sem medos, sem tantas expectativas.

Acredito que essa conexão é eterna e etérea, uma presença constante que nos acompanha, mesmo quando não a percebemos. No fim, tudo o que precisamos é estar no presente, nos entregarmos ao fluxo da vida, sem pressa e sem angústia, ouvindo o chamado da natureza que nos envolve.

Assim como quando estou no campo, cercada pelo que é simples e natural, devemos permitir que nossa alma se funda com o mundo ao nosso redor, sem a necessidade de compreender tudo. A natureza, com sua sabedoria silenciosa, nos ensina a simplesmente ser, a viver com leveza e liberdade, e a encontrar beleza na simplicidade da existência. Pode soar romântico, e de fato é um desafio constante alcançar esse estado, mas acredito que é hora de irmos para esse lugar o máximo de vezes possível.

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